Cativeiro Cine Existencial



O lugar onde Kierkegaard, Charlie Kaufman e o falecido Juanito Gonzalez se encontram para tomar cerveja. O lugar onde somos todos carentes e sem rumo.





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Sexta-feira, Janeiro 20, 2006
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Sobre um cara que morreu.

Há uns 3 meses, um cara chamado Marcos Lucinski, brasileiro, 32 anos e dono de uma empresa de normas
de segurança que estava participando de uma feira de negócios na Alemanha, decidiu seguir para a França,
com o objetivo de escalar o Mont Blanc, a montanha mais alta da europa, com 4.800 metros de altitude, onde
mais de 7 mil homens já morreram. Ele foi sozinho e deixou apenas uns parentes avisados sobre seu passeio.
Até hoje ele não apareceu. Já foi declarado morto, principalmente depois de uns 25 dias, após as buscas terem
sido suspensas devido ao mal tempo. Oficialmente morto.

Este texto não é de cunho jornalístico, mas sim espiritual. Nosso amigo morto tinha uma família, filhos, esposa
e grana. E de repente ele precisou subir na montanha sozinho. Ele quis fazer isso. Todos sabem que para
subir uma montanha dessas o cara tem que estar muito bem condicionado fisicamente, se não ele não
suporta o ar rarefeito e cá entre nós, subir 4.800 metros não deve ser tão fácil quanto subir 500 degraus
da igreja da Nossa Senhora da Penha todo ano pra receber graças divinas de algum santo bla bla bla. (com
o pedido de desculpas embutido para os amigos católicos).

Marcos foi e até hoje não voltou. Quando você faz isso, sabe que não vai voltar. E este texto é sobre isso.
Quando falta algo na sua vida, você precisa procurar o que possa preencher esse vazio. Eu quero acreditar
que nosso amigo conseguiu chegar ao topo pra depois morrer, ou que ele tenha morrido em paz, signifique
isto o que possa significar. É uma pequena metáfora das nossas vidas. Existe um ponto de ruptura em que
de algum jeito você sabe que não dá pra voltar atrás. Em termos práticos você pode, mas se fizer isso, de
que terá valido o esforço? Não é o orgulho, não é o amor próprio, não é o instinto de morrer, é somente
o curso das águas do rio. Existem coisas que acontecem e que você se pergunta o porquê e isso é uma
grande perda de tempo, porque o tempo não conta pra trás. O caminho é só o que os seus olhos conseguem
enxergar. É como o provérbio chinês (será chinês mesmo ou eu vi isso em algum filme?) que conta que o
homem corria desesperado fugindo dos leões que o perseguiam e ele olhava para trás o tempo todo e
a cada momento que ele olhava pra trás, ficava mais aliviado pois os Leões já estavam distantes e em certo
momento ele percebe que um leão o aguarda lá na frente para devorá-lo e ele nada pode fazer pra se salvar...
Então, porque olhar para trás? Você está fugindo de quê? Quando acaba, acaba. E todo fim traz um novo
começo. E não estamos sempre recomeçando?

Supondo que não exista vida após a morte, deveria me lamentar por algo? Oras, não creio... é divertido
estar vivo sem saber o que vai me acontecer amanhã... vocês não sentem o mesmo? Como disse Gustavo
Cerati: "O silêncio não é tempo perdido".

Ao realizar as buscas no Mont Blanc pelo Brasileiro desaparecido 10 dias antes, os homens do resgate
encontraram em uma caverna a seguinte mensagem:

"Não se preocupem comigo. Está tudo bem. Tenho vivido coisas lindas e indescritíveis aqui.
ass: Marcos Lucinski"


Deve ter valido a pena.



Sábado, Dezembro 31, 2005
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Felicidades nesta data tão importante!!!

Neste sábado, dia 31/12/2005, estaremos todos unidos em diferentes partes do Brasil
e do mundo. Os povos irão se abraçar e a fé irá tomar conta de tudo e de todos, a
alegria presente nos rostos de cada criança será o combustível para uma nova era
cheia de harmonia e paz. Todos estaremos renovando nossa fé, jogando plantas no
mar só para tornar o dia seguinte dos catadores de lixo mais medíocre do que ele
sempre foi, estaremos agradecendo as bençãos recebidas no ano de 2005, as traições,
as mentiras, as crueldades, tudo isso fica em segundo plano, tudo fica esquecido...
O que importa é que quando o relógio marcar 00:00 e você estiver lá vestido de branco
ou azul, ou rosa, ou verde, ou vermelho ou um preto básico, abraçado com seus familiares
tão queridos, tomando champagne ou Caninha 51, ouvindo os fogos de artifício, enfim,
quando o relógio realmente marcar 00:00 neste dia de tanta expectativa, será
domiiiiiiiiiinnnnnnnnnnnngggggoooooooooooo !!!!!!

Feliz Domingo para você e sua família. São os votos do Cativeiro Cine Existencial
para que toda a festa e união não tenham sido em vão. :-)

Sexta-feira, Dezembro 23, 2005
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Qual é o propósito do coelho na natureza?

Uma médica veterinária foi agredida por uma cliente, na tarde desta sexta-feira, por quase três horas
dentro de um apartamento no Jardim Botânico . A mulher foi trancada num quarto do apartamento, teve
as mãos amarradas e foi agredida fisicamente e verbalmente. A agressão foi cometida pela dona de um
coelho, que foi tratado pela médica há uma semana.

A veterinária ministrou um medicamento no coelho, mas a dona do animal ficou furiosa quando descobriu
que havia uma substância tóxica no medicamento. A dona do animal, que mora na Barra da Tijuca, planejou
a armadilha e atraiu a veterinária para o apartamento no Jardim Botânico.

Além da agressão, a veterinária foi obrigada a beber o remédio que tinha indicado para o coelho.


Teoria 1 - Eu penso que talvez o coelho em questão seja um demônio que se apossou de sua dona para se
vingar da veterinária.

Teoria 2 - O coelho é o Frank do filme Donnie Darko, e a mulher em questão está apenas fazendo algo
necessário para que o mundo não acabe.

Teoria 3 - A dona do coelho é psicótica.

Teoria 4 - O coelho é psicótico e pediu a dona para cometer o crime.

Teoria 5 - O coelho e a dona mantém uma relação de incesto/zoofilia.

Coelhos não fazem muito sentido. Eu tenho medo de coelhos. Eles não fazem barulhos, não reclamam,
não latem, não miam, não abrem a boca e me parece que tem dentes perfeitos. Percebem algo
realmente estranho nisso tudo? O que os coelhos fazem quando seus donos estão dormindo? O que
eles fazem quando não tem ninguém perto deles? Coelhos perseguem ratos? Matam cobras? Comem
aranhas? O que essas porras de animais cretinos fazem de útil para uma natureza mais equilibrada?!!

OBS: todo coelho é cínico. Eles sempre fazem cara de vítima. Eles sempre são vítimas. Sempre.

Segunda-feira, Dezembro 19, 2005
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Lava-Jato para discos voadores



Eu acredito nos gênios. Bob foi um deles. Sua música é real, você pode quase tocá-la
e isso é uma coisa que não é tão comum. Por isso talvez, seja uma obrigação
homenageá-lo de alguma forma aqui. "Like a rolling stone" foi eleita a melhor canção
de todos os tempos e isso sim é um bom motivo para colocá-la aqui. Não bastasse
a importância intelectual e musical desse cara pra música, eu o faço porque me sinto
em paz quando escuto as coisas que ele tem a dizer. Like a Rolling Stone é um estado
de espírito transitório, eu tenho certeza, porque se fosse eterno, seria difícil de viver.
Lógico que um dia irá passar, quando já estivermos cansados e tal, mas espero que
não seja esquecida nunca. Faz parte do amadurecimento de cada pessoa. Se um dia
eu virar político, vou obrigar os estudantes do ensino médio de todas as escolas a ouvir
essa música todos os dias de manhã, antes de começarem as aulas. Hinos de colégio?
Pro inferno! Hinos patrióticos? Pra puta que o pariu! O hino é este! É o som do mundo
real, o som dos sofredores, dos batalhadores, dos curiosos, dos mentirosos, dos
arrependidos, dos ignorados, dos pobres, dos que já tiveram algo, dos que já perderam
algo, de todos, quase todos.

Era uma vez, você se vestia tão bem. Jogava esmola aos mendigos em seu auge, não foi?
As pessoas chamavam, dizendo ¿Cuidado boneca, você está pedindo pra cair¿. Você achou
que todos eles estavam brincando com você você costumava rir de todo mundo que ficava
vadiando ao redor, e agora você não fala tão alto, agora você não parece tão orgulhosa, de
estar tendo que vasculhar pela sua próxima refeição...

Como se sente? Como se sente? Por estar sem um lar?Como uma completa estranha?
Como uma pedra rolando...

Você freqüentou a melhor escola, muito bem, senhorita solitária, mas você sabe que você
apenas ficava enchendo a cara lá, e ninguém jamais lhe ensinou como viver nas ruas, e agora
você descobre que você vai ter que se acostumar com isso... você dizia que jamais condescenderia
com o vagabundo misterioso, mas agora você percebe que ele não está vendendo álibis, enquanto
você olha fixamente para o vácuo de seus olhos, e o pergunta, você quer fazer um trato?

Como se sente? Como se sente? Estando por sua conta, sem nenhuma direção para casa
Como uma completa estranha, como uma pedra rolando...

Você nunca se virou para ver as carrancas dos equilibristas e dos palhaços enquanto todos
eles chegavam e faziam truques para você... você jamais entendeu que isso não é bom, você
não deveria deixar as outras pessoas se divertirem no seu lugar. você antigamente cavalgava
o cavalo cromado com seu diplomata que carregava em seu ombro um gato siamês... não é difícil
quando você descobre que ele realmente não era tudo que aparentava ser depois que ele levou
de você tudo que podia roubar?

Princesa no campanário e todas as pessoas bonitas estão todas bebendo e pensando que estão
por cima trocando presentes caros e coisas, mas é melhor você surrupiar o seu anel de brilhante,
é melhor você penhora-lo, gata... você antigamente era tão entretida com o Napoleão de trapos
e a linguagem que ele usava, vá para ele agora, ele te chama, você não pode recusar...
quando você não tem nada, você não tem nada a perder... você está invisível agora
Você não tem mais segredos a ocultar...

Como se sente? Como se sente? Estando por sua conta, sem nenhuma direção para casa,
como uma completa estranha, como uma pedra rolando...


É isso. Bom, tenho que ir... Preciso abrir o meu lava-jato de discos voadores, um negócio
patentiado por mim mesmo, que me fará milionário. A Nasa e a CIA já estão abrindo
negócios semelhantes, mas eles levam pequena vantagem porque o deles é anexo
a estação espacial internacional. É um ponto melhor que o meu...

Quarta-feira, Dezembro 14, 2005
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Precisamos de uma redenção.

Eu não sei se eu estaria aqui, hoje, dizendo essas coisas, se tudo tivesse
corrido as mil maravilhas. Nós temos uma tendência a nos acomodar com as
coisas quando a vida coloca quaisquer mediocridades pra gente provar, que
satisfaçam momentaneamente o nosso desejo de buscar dias mais bacanas.
Também não posso deixar de citar, ao introduzir este post, que as temperaturas
estão estranhas ultimamente. Em outros anos estaríamos com 50 graus e sol
intenso, mas hoje está nublado e eu já me peguei espirrando umas 5 vezes
desde que acordei, então posso presumir que as coisas estão saindo dos trilhos,
que o que era esperado virou memória.
Este blog já teve mil e uma utilidades antes e foi muito legal constatar que algumas
pessoas conseguiram enxergar alguma coisa aqui, muito embora até hoje eu ache
tudo isso uma grande perda de tempo. Nem sei porque eu mesmo gasto palavras
nisto. Poderia estar gastando meu tempo com filmes ou passeios a luz do dia em
parques ou passeios à luz das trevas em shoppings nefastos, mas não tô, e o que
em outros tempos seriam programões pra mim, hoje não passam de demonstrações
da barbaridade que as nossas vidas se tornaram. Como já disse antes, haveriam
mil motivos pra eu não estar escrevendo nada neste blog hoje, pois quando a gente
tem o mínimo de futilidades a nossa disposição, tende a sentar a bunda na cadeira
e ver o dia passar do lado de fora, e isso quando as cortinas não estão fechadas.
Tudo bem, somos seres estranhos. Deus nos fez com bizarrices que ninguém
pode explicar. Temos a tal "pulsão de morte", ou seja, buscamos a todo custo
a morte ao invés da vida. Isso era dito pelo Freud se não me engano. Ele falava
disso nos primeiros ensaios dele, e só para constar, Freud foi um dos maiores
gênios que já existiram. Você pode até não ser chegado em psicanálise, mas
não dá pra discordar que ela é totalmente fascinante.
Haveriam também, mil motivos pra eu estar aqui descendo o pau em Deus
e tudo que o valha e vêm dele, mas se eu fizesse isso, não acredito que
chegaria a algum lugar, porque nós nem sabemos se Deus realmente existe,
e por mais que eu tenha a minha religião e ande sempre amparado pelos
ensinamentos de Chico Xavier, eu não devo me permitir concessões. Somos
3 bilhões de religiões, ou seja, não somos nenhuma. E provavelmente são
essas coisas que nos afastam, que nos fazem lutar por coisas inúteis, que
não alimentam o corpo e nem a alma. Só deixam um rastro de ódio e dor
por onde passam.
Depois de 23 anos, me vi diante de uma grande questão tirada de minha
própria cabeça. Uma pergunta simples, mas a mais difícil que eu já tive
que responder, e que provavelmente respondi errado. "Por que não podemos
fazer as coisas certas, divinas, lógicas e belas em detrimento de relaçoes
mais justas e saudáveis?". Os motivos que me levaram a este questionamento
são inúteis por ora, e não quero abordá-los. Não teria o direito de cuspir
frustrações pessoais na cara de ninguém. E muito menos pela internet, onde
as pessoas só querem relaxar e descobrir novos caminhos, novas soluções
pros mesmos problemas, antigos problemas. Essa pergunta parece tão
estúpida quanto uma redação feita por uma criança de 8 anos de idade
no dia do índio, porém se nós tivermos a capacidade de refletir por alguns
instantes sobre as nossas próprias vidas, iremos encontrar alguma situação
em que essa pergunte acaba se tornando uma coisa pertinente, necessária.
Simplesmente porque parece que fechamos os olhos pras diferenças
que as pessoas tem umas das outras, das necessidades que cada um nutre
em seu íntimo, para os defeitos e qualidades que todos temos. Se somos tão
diferentes uns dos outros, então porque usamos pesos e medidas iguais?
A questão que eu quero abordar é: Pelo que estamos lutando? Quais são
os nosso objetivos? Qual é a nossa luta? Qual é a nossa luta?!
É claro que é um pensamento existencialista ao extremo, mas eu só tô
usando esse blog pra trazer ele pra discussão porque o natal está chegando
e no entanto eu pude notar que muitas pessoas não estão dando a mínima,
e por mais que exista algum tipo de dor em alguns lares, de trauma, de
rachadura moral ou mesmo espiritual, não deveríamos estar caminhando
rumo a coisas melhores?
Qual é o benefício que existe em se focar nas coisas materiais? Você
quer um carro novo, um computador novo, uma roupa de grife nova, uma
mulher nova, uma família nova e no final das contas ainda não percebeu
que na verdade você não quer nada disso. O que você quer é uma vida
nova. E você quer uma vida nova porque você está cansado dessa vida.
Você está cansado de sempre ver as mesmas coisas acontecendo, de
ver o erro e repeti-lo, ainda que não tenha tido tal intenção. Você está
cansado do comportamento que as grandes corporações tentam te
vender, dessa cultura de "coma os restos, coma as migalhas", de ter
que aceitar a mesma rotina sempre em troca de absolutamente nada
que não seja alimento físico. Pois infelizmente, o alimento que nos faz
falta de verdade, é da alma. Estamos o tempo todo nos agredindo
mutuamente, buscando saídas fáceis pra problemas que sempre
tivemos, julgando as pessoas à revelia, e aceitando as porradas com
a dignidade morta. Nossos pensamentos são cada vez mais egoístas
mas até aí não é novidade pra ninguém, certo? Se você faz por si,
sorte a sua, é o que dizem.
Depois de pensar um bocado eu simplesmente acho que nós somos
sim responsáveis pelas nossas vidas, mas de certo modo também somos
pela vida dos outros, e eles também são pelas nossas. Acreditar em uma
vida de isolamento é estupidez, pois ninguém suportaria isso por muito
tempo. A questão toda é que somos seres sonhadores e ninguém pode
nos tirar isso. Se temos esperança, precisamos mantê-la. E se alguém um
dia duvidar da sua capacidade de manter a esperança intacta apesar de
todas as porradas, é porque essa pessoa já perdeu a dela. E não vai
significar jamais que foi o fim. Nem pra ela e muito menos pra você. A
nossa redenção parte necessariamente de uma reflexão serena de
nossas vidas, das coisas que nós fizemos por nós, pelos outros,
contra nós e contra os outros. Transformar flores em armas na vida
dos outros é um crime contra nossas vidas. Porque em algum momento
nós seremos alcançados. E eu gostaria muito de ser alcançado por
coisas boas, justificadas por atitudes dignas da minha parte e não
receber de retorno apenas o que sobra das pessoas, em sua busca
desesperada por um caminho mais curto rumo ao inferno.

Este não é um texto estilo "faça a sua parte por um mundo melhor".
Vamos deixar isto para os artistas roedores ou os sanguessugas da
mídia. É apenas uma mensagem de fim de ano para quem ainda
está a procura de um bom motivo pra rever alguns conceitos, para
quem não quer ficar sozinho. Este é um texto para ser compartilhado!

Domingo, Setembro 25, 2005
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O grande dia do garoto Chewbacca

I


Ele era um garoto de 13 anos. Não tinha nome pois não interessa a este escritor
dar um nome a um garoto estranho de 13 anos. Ele queria se chamar Mike, mas
não foi esse o nome que lhe foi dado. Sua vida era um lixo. Ele fedia. Ela também.
Seus amigos eram bonitos, espertos, e tinham namoradas com bundinhas
empinadas e seios fartos, próprios de meninas no início de seu desenvolvimento
biológico dos anos 90. O garoto era triste. Ser estranho não era o suficiente. E
ele fedia. Fedia mesmo. E fedia a cocô de gato, muito embora não tivesse um
gato em sua casa. Esse fedô nunca viria a ser explicado pela ciência.

Havia algo em suas manhãs que o diferenciava dos outros garotos. Ele
acordava e pegava uma escova de dentes embaixo da cama e escovava os
dentes no total escuro, embaixo de seu edredon vagabundo, presente de
natal de quando ele tinha 4 anos de idade. Um edredon de aviões caça Mirage.
O frescor de escovar os dentes embaixo do cobertor lhe fazia bem, pois a
noite toda ele sentia calor. Em sua casa não havia ventilador. Seu padrasto
dizia que pelo fato de haver uma ligação clandestina de luz em sua casa,
qualquer eletrodoméstico levaria a companhia de energia a suspeitar do uso
indevido de luz ali naquele lugar, escondido no meio de uma cidade cinza, suja.
Seu padrasto era pedófilo, mas não sabia disso ainda. Somente 15 anos
depois, ao levar seis tiros na cabeça de um vizinho por abusar sexualmente
de sua filhinha de 5 anos de idade, ele descobriria.

Mas o garoto nunca havia sido estuprado ou coisa do gênero. Noites quentes
e dias frios. O sol de 35 graus jamais lhe daria calor. Por isso ele usava um
casaco de lã todos os dias, e transpiradava como um porco nojento na escola.
Todos lhe diziam que ele fedia, mas ele sentia frio. O que diabos poderia
fazer? Após escovar os dentes, religiosamente o garoto ia em seu velho baú
de plástico azul, presente de um tio comerciante já falecido, e pegava uma
barba postiça enorme, marrom, e a usava em frente ao espelho. Aqueles 20
minutos diários de auto-desejo em frente ao espelho mantinham o garoto em
paz. A barba representava algo que ele não sabia dizer o que era. Ele não
fazia a menor idéia de quem era. E ele fedia.

Sua paixão era uma menina chamada Alice, 17 anos e muito alta, talvez um
metro e oitenta. Alice era magra como uma modelo de passarela made in
Sudão. Ela nunca havia ido a praia, mas passara toda a sua adolescência
nadando, obrigada por seus pais. Lhe abasteceram com anabolizantes e
remédios para desenvolvimento acelerado dos ossos, idealizando uma
atleta perfeita, mas nada disso resultou em uma atleta olímpica ou coisa
do gênero. Alice havia se tornado uma bizarra mistura de Olívia Palito com
Vampira. Ela já não dormia há muito tempo. Alguns diziam que ela dormia
uma noite a cada seis meses. Outros diziam que as olheiras profundas e
tristes eram ressaltadas com maquiagem todos os dias. Alice não fedia,
mas dava muito medo. Ela não tinha amigas e isso havia feito com que o
garoto se apaixonasse por ela. E eles nunca trocariam uma palavra em
toda sua vida.

O garoto precisava de auto-afirmação. As constantes críticas sofridas nos
últimos anos haviam feito muito mal a ele. Como alguém naquele estado,
com aquele cheiro, aquele comportamento, poderia ter amigos e causar
interesse nas pessoas? O garoto mal sabia o que essa fase terrível
causaria ao seu futuro sexual, ao se descobrir homossexual aos 30 anos,
velho demais para fazer planos e novo demais para sofrer.


II


Um dia, na aula de educação física, o garoto é selecionado para jogar em
um dos times de Handball, contra a vontade de todos, inclusive do professor,
que segundo diziam as más línguas, fazia questão de tomar banho pelado
junto dos alunos para observar seus corpos, de meninos, ainda em formação.
O garoto era a peça que faltava em um dos times, já que naquele dia muitos
alunos haviam faltado por conta da forte chuva que caía na cidade. Sempre
habituado a ler gibis a beira da quadra, isolado, ele fora pego de surpresa e
obrigado a ficar no gol, com a impossível missão de defender boladas à
queima roupa, com a bola molhada. E por que diabos o Goleiro dos times
de Handball não usa capacete e máscara protetora?

Não seria uma tarde fácil para ele. Observado por todas as menininhas da
turma, torcendo pelos garotos populares, o garoto faria uma exibição um tanto
milagrosa. Levando 7 pesadas boladas no rosto e salvando seu time de levar
um único gol sequer, ele se tornaria o algoz dos atletas ávidos por aplausos
femininos, e estas, em silêncio, apenas observariam aquela tarde de defesas
involuntárias de um jovem estranho, parado como um poste, no meio do gol
daquela escola particular medíocre de subúrbio.

Ao defender sem intenção a oitava tentativa de gol dos adversários, o garoto
se choca com o garoto mais popular da turma, Sílvio, considerado pelas
meninas o mais bonito da escola e reconhecido como o único que conseguira
alcançar a incrível marca de ficar com 12 garotas em uma mesma noite. Ao
se chocar, o garoto fedorento, nosso personagem principal, sente seu
estômago mexer e a comida do almoço revirar de um lado pro outro,
provocando um jato de vômito violento, que atinge Sílvio no rosto enquanto
este grita com o professor para marcar o pênalti a favor de seu time. Após
engolir vômito do garoto estranho, Sílvio sente seu estômago revirar e pensa
por um momento que vomitar é uma das piores coisas que poderiam lhe
acontecer naquele momento. Talvez ele soubesse que isto iria acontecer. Sílvio
vomitaria durante 17 minutos seguidos, na quadra, na frente de todas as
meninas, causando nojo e vergonha em seus amigos. Naquele dia, duas
pessoas teriam sensações diferentes, mas que jamais seriam esquecidas:
Alice, do lado de fora da quadra, isolada de tudo e de todos, daria um sorriso
de canto ao ver tal cena, ao ver todas aquelas meninas cheias de fogo
pré-adolescente enojadas do garoto mais bonito da escola. E por fim, o garoto
estranho, vilão de toda uma turma de futuros maníaco depressivos, pais
separados, gerentes de banco, esposas de homens cretinos, fanáticos por
igrejas de mentira, funcionários públicos e donos de lojas de shoppings
vagabundos de subúrbio.

Aquele jato de vômito seria o começo do fim de uma fase muito estranha e o
início tenebroso de uma vida mórbida, sem fim.

III


Nas semanas que se seguiriam ao evento, todas as turmas, de todos os turnos,
ficariam sabendo do ocorrido. Sílvio, o garoto vomitado, entraria em depressão,
emagreceria 10 quilos em 15 dias, e morreria logo em seguida, vítima de uma
infecção generalizada, comovendo toda a escola, traumatizando a todos, e
elevando a índices altíssimos o ódio de todos contra o garoto do vômito, o algoz.

O diretor Peixoto, um quarentão incompetente, o chamaria para uma conversa e
lhe daria duas alternativas: sair da escola ou ficar e ser repudiado por tudo e todos,
sempre. Um pobre jovem de 13 anos ficaria lastimado com tal acontecimento,
mas ele não. Ao franzir a testa e dizer um simples ¿sim¿ para o diretor, ele daria
fim aquele regime de ódio e insensatez. E não precisaria mais lidar com um corpo
docente tão podre quanto aquele. Ele sabia que não poderia se matricular em
outra escola naquele mês de setembro, portanto seu ano letivo estaria perdido.
Mas ele nem ligava.

Ao comunicar seu pai do ocorrido, o garoto não moveria um único músculo do rosto.
Seu padrasto, após alguns xingamentos, lhe diria para não comer muito enquanto
estivesse em casa.

IV


Nosso pequeno garoto passaria os três meses seguintes trancado num cubículo
de 2 x 2 com seu cachorro viralata, carinhosamente batizado de ¿Lingüiça¿ e uma
tv de 14 polegadas. Naqueles dias sombrios, ele assistiria ao filme Star Wars
umas 300 vezes, sempre vidrado em seu personagem favorito, Chewbacca, o
peludo personagem criado por George Lucas, que lhe faria querer ser um Wookie
durante toda a sua juventude. Alguma coisa naqueles pêlos hollywoodianos lhe
faziam ter esperança de um dia poder ser como Chewbacca, estranho, porém
pertencendo a algum povo, algum lugar. O Garoto só queria ter tido a oportunidade
de fazer parte de algo. Não seria essa a necessidade de todos?

Alguns dias demorariam tanto a passar, que a única maneira de sobreviver a eles
seria usar a barba postiça e dar a si mesmo alguns minutos de prazer em seu dia.
Tardiamente o garoto estranho descobriria a masturbação, com quase 14 anos. O
estranho nisso tudo é que ele fazia o ato patético de frente para o espelho, usando
a barba. E ele continuava fedendo.

V


No angustiante mês de Dezembro, quando todos se preparavam para viver seus
natais com alegria, fingindo um amor que duraria apenas algumas horas daquele
dia 25, tradicional, o garoto receberia uma carta e uma caixa. Na carta a seguinte
mensagem:

¿Você quer a sua vingança? Eu quero
a minha. Eu jamais serei perdoada,
mas precisei fazer. Não tenha medo
de nada. Eu sempre vou ser como você.
Parte de algo que jamais vai existir.
Nós jamais iremos existir. Vá a festa.
E entregue o que está na caixa para
todos. Por favor, vá a festa. Ela é sua.

Alice¿


Ao abrir a caixa o garoto encontra uma cabeça. A cabeça da garota mais popular
do colégio. Era a cabeça da garota mais gostosa do colégio. O garoto lamentaria
por um momento. A garota era gostosa demais para acabar assim, morta. Seu
corpo era extremamente promissor, e seu caráter duvidoso era a garantia de uma
mulher gostosa e fácil para os homens no futuro. O garoto realmente não conseguia
entender aquilo. Alice não deveria ter feito aquilo. Nosso pobre rapaz daria qualquer
coisa para saber onde estaria enterrado o corpo sem cabeça da cabeça de sem
corpo que ele tinha em suas mãos.

VI


A festa seria a coroação de um ano medíocre para aqueles alunos do colégio
medíocre do subúrbio. Uma festa com entrada não permitida para pais e responsáveis.
Por que não dançar e beijar a vontade as vesperas do natal?

Naquela tarde o garoto ficaria 3 horas de frente para o espelho e vestiria seu uniforme
de guerra, especialmente confeccionado para aquela data especial. A carta recebida
de Alice, modelo made in Sudão, no dia anterior lhe abrira os olhos. Como poderia
perder aquela festa, afinal todos estariam lá para ver o presente enviado por Alice. E
mais, todos descobririam o lado mais sujo e escuro do garoto algoz.

Seu uniforme não era camuflado. Não era caro. Não era feio e nem bonito. Mas tinha
muitos pêlos. Muitos pêlos.

Antes de sair de casa, o garoto decidiria ligar a tv no noticiário local. Alice era a notícia.
A polícia havia encontrado seu corpo caído no meio de sua casa, com um tiro suicida
na cabeça. Mais precisamente na nuca. Até nisso a garota era detalhista. Para não
deixar de lado a exploração da insanidade e do sensacionalismo barato, o noticiário
ainda mostraria o pequeno cemitério encontrado nos fundos de sua casa, ao lado da
pequena horta de sua mãe. Ossadas de cães, gatos, pássaros e bonecas Barbie
estariam entre as vítimas.

VII


As 20:00, todos os adolescentes estão dançando ao som de Steve B e outras
coisas pop da época. Empolgados e felizes com aquele dia de liberdade total.
E como em toda festa de jovens de um país de terceiro mundo não poderia faltar
alguma cópia de alguma tradição americana, a coroação do Rei e da Rainha
do baile seria naquele momento, no palco especialmente montado para um DJ
suburbano de 22 anos tocar os maiores sucessos da música trash americanizada
suburbana dos anos 90 sem interrupções.

Então ao subir no palco para anunciar o rei e a rainha, o jovem representante de
turma e presidente do grêmio do colégio Euclídes, pede para que todos abram
espaço, formando um corredor que leve até a escada que dá pro palco. E os
ávidos adolescentes cheios de ansiedade assim o fazem, porque naquele momento
eles poderiam se sentir menos brasileiros e mais sessão da tarde do que jamais
haviam sido em toda suas patéticas vidas.

E não seria naquela noite que o rei e a rainha seriam anunciados, pois causando
tremenda surpresa e silenciando a todos, surge do fundo do imenso galpão um ser
muito estranho, vindo de outro mundo, quase um monstro, caminhando a passos
lentos e medidos em direção ao palco, como se fosse aquele o seu grande momento.
Era o garoto, o garoto Chewbacca, em seu uniforme peludo e triste, feito com algumas
porcarias compradas numa papelaria no mesmo dia. Alice estaria orgulhosa, de
onde estivesse. Alguns jovens começariam a rir de tal criatura, enquanto ela se dirigia
ao palco, pensando se tratar de alguma brincadeira, alguma piada.

O garoto Chewbacca teve a atenção de 500 jovens naquela noite de dezembro quando
subiu ao palco sem ser convidado, e sem tirar a máscara, pegaria a cabeça da menina
mais gostosa do colégio e a ergueria para o alto, como um troféu, causando pavor
generalizado, externado das mais diversas maneiras, gritos histéricos, frases com a
palavra ¿Deus¿, e silêncio, muito silêncio. No final de tudo, ao tirar sua máscara de
Chewbacca, ele ficaria vendo o sangue escorrer da pobre cabeça da menina, separada
violentamente de seu corpo no dia anterior por uma colega de classe, insatisfeita com
uma fofoca sobre seu cheiro. O garoto Chewbacca não sabia disso, mas ele fazia falta.
E na falta de uma figura nojenta, elegeram a mais feia como fedorenta. Não é isso que
se faz por aí?

Em câmera lenta alguns policiais se aproximariam do garoto Chewbacca e o levariam
para um camburão de polícia, enquadrando-o como cúmplice de Alice na morte da
pobre menina gostosa sem cabeça.

4 anos mais tarde, após sair de um manicômio no interior do estado, o garoto
Chewbacca enriqueceria ao assinar um contrato com a frabricante da boneca ¿Sapeka
esquiadora¿, rival da linha de bonecas Barbie na época. Na propaganda veiculada uma
única vez em rede nacional no horário nobre e posteriormente proibida pela justiça, o
garoto Chewbacca apareceria com uma Barbie sem cabeça em suas mãos e diria a
frase: - Boneca Sapeka, esquiadora, a boneca com atitude!


Domingo, Agosto 14, 2005
Comente
1 INT SALA NO MANICÔMIO NOITE 1


A sala é minúscula, quase um cubículo. ELISA, 23, está sentada a mesa,
trajando uma roupa branca, própria dos loucos. Ela é muito magra, com
cabelos feios e sem brilho. Seus olhos são tristes, e ela apenas olha
para o nada.

Enquanto Elisa se mantém quase catatônica, alguém se aproxima dela,
por suas costas. É MARVIN, 24, um rapaz de aparência derrotada,
extremamente mal cuidado. Ele se aproxima lentamente, como se
tomasse cuidado para não fazer barulho.

MARVIN
(murmurando)
Elisa! Sou eu, Marvin...


Elisa fica imóvel. Ela continua com o olhar perdido.

MARVIN
eu sei que parece loucura, mas tudo isso tinha uma
razão de ser... eu tive de sumir! Se eles
descobrirem que eu estou vivo, nós dois estaremos
perdidos!


ELISA
(ainda olhando para o nada)
eu gostava... de você...


MARVIN
ainda sou eu! Você precisa entender que eu
ia fazer, mas desisti!
Eu ainda tô vivo! Entenda...


ELISA
(virando-se fria e bruscamente para Marvin)
você morreu!


Marvin fica desolado e sem palavras. O olhar de Elisa nunca lhe
deixara com tanto medo.


2 INT SALA DO CASEBRE DE MARVIN NOITE 2

Elisa, com a aparência mais esquelética do que nunca, está sentada
no sofá da sala, que na verdade não passa de um monte de almofadas
sujas e velhas. Ela está com os olhos vermelhos, marejados. Marvin
surge a sua frente com certo entusiasmo. Ele traz consigo um quadro,
sem revelar o que nele está pintado.

MARVIN
Acabei o último da série. Eu completei minha obra.


ELISA
(fitando-o com seriedade)
que bom...


MARVIN
Você quer ver?


ELISA
Mostre.


Marvin revela o quadro para Elisa. Trata-se de uma simples obra,
feita com um tom de cinza triste e vazio. O desenho é o de um
SMILE desanimado, cansado do mundo, um quadro que os mais
ignorantes diriam se tratar de uma obra feita por uma criança de
5 anos de idade, exceto pela especificidade na fisionomia do
personagem.

ELISA
(chorando de leve, denotando um certo
desespero contido)
Este é o mais triste de todos.


Marvin vira o quadro para si e fica observando com certa curiosidade
sua recente obra.

ELISA
eu preciso conversar sobre uma coisa...
(contendo o choro)
eu acho que estou sendo seguida por uns caras
de preto, armados. Eles querem me matar. Sim,
eles querem.


MARVIN
Você já tomou seu remédio hoje?


ELISA
não! Você não entende! É sobre isso!
(pausadamente)
Marvin, eu descobri uma fórmula pra bulimia
Acelerada. Eu acho que isso poderia destruir
As indústrias alimentícias... Imegine todas
as pessoas do mundo comendo pela metade...
eu sei que eles estão me perseguindo por
isso... só pode ser isso...


MARVIN
Elisa, não existe conspiração alimentícia
Nenhuma contra você...


Marvin tem pena de Elisa. Em seus olhos podemos ver sua
impotência perante a loucura de sua namorada. Ele a observa
com certo desprezo, e eles definivamente não são o casal mais
normal do mundo. Elisa, com sua aparência esquizofrênica, fica
apenas acenando positivamente com a cabeça, cerrando e
abrindo os olhos. Ela está fora de qualquer estado normal.

ELISA
e tem outra coisa Marvin. Você. Eu não posso
ficar mais com você. Eles estão me perseguindo
e eu não sei como você poderia me proteger...


Marvin tenta se aproximar de Elisa mas ela não deixa.

MARVIN
Elisa, eu sempre vou proteger você...


ELISA
Não! Você não tem dinheiro! Você é um derrotado!
Você e esses malditos quadros! Quem quer ver um
Bando de Smiles tristes?! Eu não aguento mais!


MARVIN
Isso me ofendeu.


ELISA
e tem mais! Quando eu disse que tinha visto um
Disco voador, você riu de mim! E agora eu aposto
Que você acha que eu estou louca! Eu não sou louca!
Eu tô sendo perseguida por um grupo de mercenários,
Ou coisa do gênero! E você, a única pessoa que eu
Tenho no mundo, só quer pensar em pintar quadros
De bonecos... estranhos!


Elisa, visivelmente transtornada, se levanta e vai embora. Ela bate a
porta ao sair. Marvin, apenas se senta no sofá e fica pensando,
olhando pro seu quadro. De repente um cachorro se aproxima dele,
um viralata muito feio, MONET, 4. Monet pára de frente pra Marvin e
olha para seu dono com desprezo, o mesmo que Elisa acabara de
lhe dar. Monet se vira e vai embora de casa também, deixando
Marvin sozinho.


3 INT SALA DO CASEBRE DE MARVIN DIA 3

Marvin está de frente para seu sofá e agora todos os 12 quadros de
sua série de SMILES tristes estão dispostos lado a lado. A grande
verdade é que somente um olhar muito apurado conseguiria distinguir
a tristeza dos Smiles dos diferentes quadros. Marvin, sério, mas ainda
com sua velha fisionomia derrotada, deixa uma carta encostada em um
dos quadros. Ele fecha os olhos por um instante e vai embora, deixando
para trás seu legado artístico, de gosto duvidoso.

4 EXT TERRAÇO DE UM EDIFÍCIO DIA 4

Marvin está parado no alto de um edifício qualquer. Ele está próximo
da beira do prédio, que é bastante alto. Dali vê-se com rara beleza o
espetáculo dos edifícios antigos daquela região da cidade.

Marvin está mal, muito mal. Se ele queria parecer um suicida em
potencial, conseguiu com todos os méritos. Ele se aproxima da borda
do edifício, mas antes que de pular, ele percebe alguém caído alguns
metros ao seu lado.

Marvin desiste de pular por um momento e se aproxima do rapaz
caído no chão. Ele fica chocado com o que vê. Um rapaz jovem, bonito,
com claros sinais de uso de drogas injetáveis, marcas em seus braços
e aparatos para injetar quaisquer tipos de substâncias em seu corpo.
Marvin pensa em tocar no rapaz, mas ele está imóvel. Marvin não sabe
ao certo como identificar se alguém está morto, então ele aproxima seu
ouvido do peito do rapaz e constata que ele não está vivo. Marvin toca
em seu braço e percebe seu corpo gelado. Mas o que mais o deixa
intrigado é que o rapaz morto é parecido com ele, muito parecido. E
mesmo sendo um cadáver, é mais bonito e mais bem apresentável que
Marvin.

Marvin pega sua carteira no bolso e tira de dentro dela sua identidade.
Ele a coloca ao lado do rosto do rapaz morto e a semelhança entre os
dois é quase inacreditável. Neste momento podemos ver Marvin
concatenando pensamentos novos, de um tipo pouco comum para
alguém como ele.


5 EXT TERRAÇO DE UM EDIFÍCIO DIA 5

Marvin está de pé, carregando o corpo do rapaz em seus braços, se
aproximando cada vez mais da borda do edifício. Marvin solta o corpo
do morto e este segue em queda livre, para se espatifar no chão,
algumas dezenas de andares abaixo. Certamente aquela foi a sensação
mais estranha que Marvin já sentiu em sua vida. Não é todo dia que um
morto é assassinado.

Marvin sente o vento gelado bater em seu rosto. Ele então sai correndo
em direção as escadas, como uma criança que sabe que acabou de
fazer uma grande besteira.

6 INT SALA NO MANICÔMIO NOITE 6

Elisa e Marvin estão sentados frente a frente na mesa, como antes. Ela,
mais confusa do que nunca e ele, angustiado.

ELISA
você deixou um bilhete...


MARVIN
Uma carta de suicídio.


ELISA
E você destruiu a minha vida...


MARVIN
Não Elisa! Eu não morri! Eu troquei minha
Identidade com o cara lá no alto, ele era
Igual a mim...


ELISA
(totalmente confusa e transtornada)
Lá em cima? Por que você voltou?


MARVIN
Voltei de onde?


ELISA
(cheia de convicção)
você morreu Marvin... e eu sei que você não
sabe que morreu... mas logo que você morreu,
a imprensa noticiou e aquele cara da galeria
veio pedir os seus quadros e vendeu por milhões
e quando ele colocou todo aquele dinheiro na
minha conta, a única coisa que eu pude lembrar
era que eu gostava de você.
(revoltada)
E você morreu cara! Você morreu!


MARVIN
Elisa, elisa... se você não acreditar em mim, eles
Vão ficar com todo o dinheiro... e você vai ficar
Presa aqui, sozinha, e eles vão te declarar maluca!
Eu só fiz aquilo tudo por desespero!
(divagando)
Eu ia me matar, mas desisti quando vi aquele cara
que era uma espécie de eu, só que morto...


ELISA
(tentando consolar Marvin)
amor, acabou... por que você fez aquilo?


MARVIN
Eu não morri... eu juro que não...


ELISA
Marvin, eu quero que você vá embora... eu sei
Que você tá passando por uma fase difícil no
Mundo espiritual cara... eu sei que toda
Adaptação leva tempo, mas você precisa me
deixar... pelo menos aqui eu tô segura...
entende?
(cochichando no ouvido de Marvin)
os caras de preto não conseguem entrar aqui...


Elisa dá um sorriso insano. Marvin fica arrasado.

MARVIN
E o dinheiro? E o nosso dinheiro?


ELISA
Marvin, eu tô sendo perseguida por um grupo de
Caras vestidos de preto, além de estar sendo alvo
De alguns aliens que eu não sei de onde vem e
Você tá preocupado com dinheiro?
(olhando fixamente nos olhos de Marvin)
cara, você é muito egoísta!
(gritando)
Por favor Jesus, mostra pro Marvin que o dinheiro
Não vai servir aí no céu! Por favor, Jesus!


Marvin não tem mais palavras. Ele apenas observa, derrotado pela
insanidade de Elisa.

MARVIN
Elisa, eu quase me matei por você, aliás, eu
Matei um outro cara que já tava morto por você,
Eu vendi a minha arte pra você não ficar tão
Louca e no final das contas tudo o que sobrou
Foi essa sua desgraçada esquizofrenia?!


Marvin está revoltado. Ele se levanta e sobe na mesa para sair pela
janela da sala.

ELISA
Da próxima vez, não volta dos mortos pra reclamar
Da vida comigo não tá? Já tô com problemas demais
Pra ter que me preocupar de novo com você... o seu
Caso agora é com Deus.
(ironica)
Ou seria com o diabo?


Marvin pula a janela.


7 EXT RUA NOITE 7

Marvin caminha sozinho do lado de fora do manicômio. Ele está sem rumo,
sem saber o que fazer. Ao olhar a sua volta, ele decide se sentar na
calçada, do outro lado da rua.

8 EXT RUA/CALÇADA NOITE 8

Marvin está sentado, pensativo. Ele está mais derrotado do que nunca.
Quando ele menos espera, surge Monet, seu cachorro, abanando o rabo
e feliz em reencontrar Marvin.

MARVIN
Oi. Feliz em me ver?


Monet dá um latido simpático. Marvin dá um sorriso de canto, tentando
se sentir melhor. Ele faz carinho na cabeça de Monet. Monet se senta ao
lado de Marvin, quieto, e assim como seu dono, fica a observar a
movimentação mórbida do manicômio. No fundo os dois sentem falta de
Elisa.

Um HOMEM VELHO, maltrapilho, usando óculos esporte escuro, se
aproxima dos dois, pedindo uma esmola. Marvin dá uma moeda que
acha em seu bolso. O Homem agradece e vai embora. Porém logo em
seguida ele pára e se vira para Marvin.

HOMEM VELHO
Jovem... eu sei que não adianta nada, mas
Eu posso recitar um poema que eu escrevi?


Marvin acena positivamente. O velho então faz pose de intelectual. Um
bêbado intelectual.

HOMEM VELHO
Eu queria um dia de sol por essas bandas
Mas sempre que faz sol, frita minha cabeça...
Eu tô cansado de esperar tanta coisa bacana
Daí eu olho as estrelas e penso em Deus
E eu vejo que ainda tô vivo...
Ó Deus, ó Deus...


Um silêncio constrangedor entre eles.

HOMEM VELHO
E aí meu jovem, gostou?


MARVIN
Uma merda. Não desista.


HOMEM VELHO
ok. Até mais ver!


Marvin acena para o velho bêbado. Ele dá um beijo na cabeça de
Monet e olha em seus olhos em seguida.

MARVIN
Vamos esperar ela aqui, ok?


Monet lhe dá uma lambida no rosto. Os dois ficam olhando pro
manicômio, esperando por Elisa.


FIM



Quinta-feira, Agosto 11, 2005
Comente
Eles querem destruir nossas vidas de novo...

Não se discute se o presidente sabia ou não do dinheiro. Se souber, não é
algo que vai me deixar muito surpreso nem nada. Mas não vai deixar de ser
uma coisa meio frustrante. É ruim imaginar que você vota num homem que
você acredita nos seus sonhos mais fantásticos que irá colocar ordem na
casa, fazer um governo sem sujeira, fazer o país crescer, etc. Não deve
estar sendo fácil para o Lula viver isso tudo. Para mim já é difícil ver o
presidente passando por isso sem poder fazer nada... Se ele tiver
participado do esquema de mensalão ou coisa do gênero, eu não vou
culpá-lo. Não que ele esteja certo, mas será que algum filho da puta
do PFL, PMDB ou PSDB tem a coragem de dizer que seus partidos
são "limpos"? Será que algum deles tem esse direito? Ora bolas, não
sejamos tão estúpidos a ponto de acreditar que o PT seria o partido
mais ético do mundo, até porque como tem sido o partido da moda
na última década, que mais cresceu, atraiu todo tipo de sanguessuga,
vagabundos, mentirosos, salafrários e hipócritas. Ninguém está livre
disso. Mas ver a rede Globo hoje tentando derrubar o Lula é doloroso
demais... Mais uma vez nosso país está prestes a ir parar nas mãos
de assassinos como ACM e toda aquela corja do PSDB. Se isso
acontecer, vai ser o nosso fim...
Se o objetivo principal hoje nesse país cheio de moralistas de fachada
é punir o PT por ter desviado 150 milhões, então acho que devemos
também começar a apurar o "desvio" de 800 milhões do BNDS para
a Rede Globo urgentemente. Que eu saiba, 800 milhões são muito
mais que 150 milhões! E a Rede Globo vai sair impune? Se o PT
merece cair, por que a Rede Globo não merece também?! Por
mil malas cheias de dinheiro!!!! A Globo merece cair sim! Ela foi
uma concessão "dada" ao capeta Marinho oras! Precisamos ser
honestos, não é? Então vamos colocar todo mundo da Globo atrás
das grades, de preferência, junto dos Petistas e dos Pefelistas! E
não podemos nos esquecer de nosso excelentíssimo ex-presidente
Fernando Henrique Inescrupuloso (com a piada a la casseta e
Planeta..), que vendeu cada centímetro do país aos gringos e nos
últimos anos foi morar na França, dar aulas para jovens de primeiro
mundo (já que só conhece esse mundo de verdade...), e agora tem
a audácia de voltar e usar a Rede Globo quase que semanalmente
para criticar o presidente Lula, sem que sequer o processo de CPI
esteja concluído! Só para lembrar um detalhe:

FHC foi exilado (será que foi mesmo?) no CHile, voltou como merda
(compatível com seu caráter), virou economista e um belo dia fez um
tal de plano Real, um plano como qualquer outro, que nos anos 80
teria se esfacelado da noite pro dia, mas que acabou nos dando a
falsa sensação de poder econômico nos anos 90. Segundo FHC,
nunca existiu inflação em seus dois nefastos governos, mas que me
lembre, a passagem de ônibus custava 40 centavos em 1994 e em
2002, na sua saída, custava 1,50. Um pequeno aumento de 400%,
certo? Nada demais... Com esse plano, ele virou estrela adorada
pela Rede Globo da noite pro dia e BUM! Esse é "o" homem que o
Brasil precisa! Virou presidente. E que MERDA de presidente...
Só boçais imbecis ao extremo podem ter o atrevimento de dizer que
FHC foi macho de verdade... (por favor Boçais, retirem-se deste site
calmamente e sem alarde...)

LULA falava em megafones para operários desde 1974 ou antes, não
sei ao certo... Foi "currado" pela Rede Globo durante sua vida diversas
vezes, roubado em 3 eleições, e agora está sendo acusado de ser um
ladrão de 150 milhões. Viveu os anos 80 em ascensão política, bateu de
frente com todo mundo, virou herói, exemplo a ser seguido e que eu saiba,
não foi "exilado". Se foi, perdoem minha ignorância, mas deve ter voltado
muito rápido...

A Julgar pelos Currículos, prefiro o segundo. Ambos já estão meio velhos,
numa idade inadequada para o mercado de trabalho, mas escolho o
barbudo. Ele terá o meu apoio sempre.

Se você boçal não tiver ido embora do site ainda, vou te perguntar
uma coisa: está satisfeito com seus serviços de luz e telefonia?
Está satisfeito com o preço da gasolina que coloca no seu carro
popular comprado com dinheiro que seus pais sonegaram de suas
empresas pseudo-evoluídas? Está satisfeito com os impostos que
a empresa pseudo-evoluída dos seus pais tem que pagar todo ano
e que os levam a atitudes sonegadoras? está satisfeito com o
sistema de saúde, com os preços dos planos de saúde? está
satisfeito com o sistema de transportes que temos hoje? E quanto
a imensa fronteira hipócrita que te separa daquelas favelas a 1 Km
da sua casa? Bom, pode agradecer ao FHC. Foi tudo obra desse
presidente competente e bem intencionado que governou o Brasil
em duas ocasiões (sendo sua reeleição uma das maiores manobras
corruptas que já existiram no país, onde cada parlamentar que votasse
a favor de sua reeleição recebia cerca de 1 milhão de reais. E ele
teve uns 300 votos a favor...)

Então, na boa, se estamos sendo fodidos pelo PT, não nos esqueçamos
que o PFL, PMDB e PSBD já fazem isso com a gente desde 1500, quando
nem tinham esses nomes ainda... Façamos um pacto: Não vamos votar nem
no corrupto PT e nem em PFLPMDBPSDB (eles são uma coisa só né...).
Por que não votamos em algo novo? Vamos propor Heloísa Helena para
presidente! E como golpe de marketing, vamos sugerir João Gordo para
vice! Olha que dupla genial seria essa! Vamos passar essa idéia a diante
e buscar um rumo de verdade pro nosso país, ou melhor, pras nossas
próprias bundas... quer dizer, vidas...

HELOÍSA HELENA PARA PRESIDENTE!
JOÃO GORDO PARA VICE!



Quarta-feira, Agosto 03, 2005
Comente
Congelei meu corpo. Me descongelem em 2178.

Está na hora de parar e refletir um pouco. Este ano não tem sido fácil.
Talvez tenha sido um fácil que se tornou difícil. Eu agora caio de escadas,
cometo erros de ortografia, destruo vidas alheias, coloco confusão na
cabeça e nos corações das pessoas, e na fúria das horas vou minando
minhas chances de conseguir as coisas que quero. Desordenadamente
vou construindo um grande castelo, sem portas, com paredes falsas,
escadas de areia, criadas a partir de uma matemática que só eu
entendo.
Então tomei uma decisão: vou congelar meu corpo por tempo
indeterminado. Na verdade tem tempo determinado sim. 173 anos.
Por que? Não sei. Mas 2178 me parece uma data interessante pra
voltar ao mundo dos vivos. Preciso que esta geração passe logo
e que eu acorde em outra época, sem nada que me lembre quem
eu sou ou de onde eu vim. Em 2178 o Rio de Janeiro nem vai mais
existir. Será um grande pólo turístico de mergulho da costa Brasileira.
As pessoas vão mergulhar de grandes navios ou passear em
submarinos gigantes feitos de vidro e o guia irá mostrar o que um
dia foi o Cristo Redentor, agora tomado de água por todos os lados,
as favelas, um conglomerado de casebres que serão moradia de
tubarões e o mais estranho de tudo: as praias da zona sul, agora
apenas longas extensões de areia no fundo do mar. De um lado
os edifícios da Avenida Atlântica e do outro apenas memórias.

2178 será o ano da minha redenção. Por isso deixo este pedido
na eternidade de um tempo que eu espero que não me deixe passar.
Deixo um pedido de clemência em favor de todo o medo da vida
e da morte que domina. Ao congelar meu corpo, não vou enfrentar
nenhuma delas.

Me preocupo com uma coisa: os sonhos. O que será deles? O que
irá acontecer com uma mente que durma 173 anos seguidos? Se
Freud dizia que era uma maneira de colocar pra fora as coisas
insuportáveis do cotidiano, qual será a função dos sonhos então?
Sem cotidiano, sem sonhos. Sem sonhos, nada.

Rumo ao futuro, lindo, fantástico e inacreditável. Só em 2178.

Quarta-feira, Julho 27, 2005
Comente
Estudantes de cinema também morrem em acidentes trágicos

Epílogo:
recapitulação;
síntese;
conclusão;
remate;
fecho.


"RIO - O estudante universitário Alexandre Nogueira, de 35 anos, morreu
atropelado esta noite durante a filmagem de um curta-metragem produzido
por alunos do curso de cinema da universidade Gama Filho, na Rua General
Bruce, em São Cristóvão.
Segundo Marcelo Mattos, amigo da vítima e diretor do filme, Alexandre e
outra estudante identificada somente como Érica foram atingidos por uma
caminhonete Toyota. Eles foram levados para o Hospital Souza Aguiar, no
Centro. Alexandre não resistiu aos ferimentos."


Este post não tem o objetivo de chegar a nenhuma conclusão. Não tem
moral, não tem conclusão. O nome provisório do curta-metragem era
"epílogo", mas como poderia haver um epílogo provisório? Existem
epílogos provisórios? Nessas horas eu me vejo deitado na cama
rindo escancaradamente como Donnie Darko ao saber que vai morrer
mas que conseguiu salvar o mundo. Esta noite eu venci. Eu morri,
mas venci.

Assim como nos filmes de Robert Altman ou de seu sucessor, Paul
Tomas Anderson, há uma ironia na morte, há algo que não pode ser
entendido. Está na alma de cada artista. Está na arte da vida, e sim,
está nas coisas que jamais poderão ser explicadas.

Não é o que você pensou
Quando você começou isso
Você conseguiu o que queria
Agora você mal consegue suportar

Você está certo de que existe uma cura
E que você finalmente encontrou ela.
Você pensa que um drinque
Vai encolher você, até você quase desaparecer

Prepare uma lista do que você precisa
Antes que a morte venha te buscar
Porque isso não vai parar
Isso não vai parar
Até você se tocar"

Wise up, Aimee Mann





Domingo, Julho 17, 2005
Comente
"O Brasil está no rumo certo..."



Está se criando no Brasil uma sensação de revolta com a riqueza dos outros.
Parece que agora, todo mundo resolveu ficar muito puto por terem inventado
um shopping para milionários esnobes fazerem suas compras sem ter de se
misturar a ralé.

Primeira consideração: a mídia está fazendo de tudo para manter esta loja
nefasta nos noticiários, motivada talvez pela prisão de sua dona que sonega
impostos e mais impostos. De certa forma isso soa meio inexplicável, mas é
bastante irônico. Parece que a criação de um shopping tão absurdamente
esnobe e altíssimo nível onde somente multimilionários top top podem
comprar, criou em muitos jornalistas uma sensação de esmagamento
social. Isto porque em muitas cidades do Brasil, já existiam shoppings
extremamente elitistas, em que ao entrar neles, você já era observado
da cabeça aos pés por todo e qualquer funcionário, julgando sua
capacidade financeira. Um bom exemplo disso é o shopping fashion
Mall, no bairro de São Conrado, no Rio de Janeiro. Localizado a
300 metros da Rocinha, este shopping sempre fez de tudo para
afastar todo e qualquer favelado fodido de suas dependências,
colocando apenas filmes "pouco comerciais" em seus cinemas,
proibindo a entrada de lojas de departamento populares e até
mesmo fechando, acidentalmente ou não um fast-food "Bob's"
que lá existia. Ali já havia uma barreira social gravíssima que
só servia para mostrar o quanto nosso país isola os pobres e
resguarda os ricos. Por que nenhum jornalista jamais reclamou
de shoppings assim? Por que preços na faixa dos 3, 4 dígitos
por uma gravata jamais chocaram a "sociedade" antes? Eu
acredito que não chocaram porque os jornalistas podiam e podem
pagar esses preços. Era algo aceitável, pois eles estavam ali,
inseridos num contexto onde se sentiam parte da alta sociedade
sem se sentirem escrotos. Quem não tem um exemplo parecido
para dar em sua cidade? Parece que agora que a Daslú chega
com seus preços de 5 dígitos, todos os jornalistas assumiram uma
posição de defensores do povo, como líderes revolucionários que
pretendem acabar com o capitalismo e promover a "reforma agrária"
da deformação social. É a velha máxima de que só dói na própria
carne...

Segunda consideração: os ricos são culpados por serem escrotamente
ricos? Esta é uma questão que diverge opiniões. Eu me decepciono
com pessoas que só enxergam até esse ponto. Por que só podemos
ficar revoltados contra a pobreza de 60 milhões de pessoas quando
descobrimos que uma roupa 100% algodão pode custar dez mil reais?
Será que a Daslú surgiu do dia pra noite? Não. Ela já existia há muito
tempo e ninguém nunca se preocupou com isso. Foi preciso que
se abrisse uma loja de 17 mil metros quadrados bem na cara de todo
mundo para que se sentissem ligeiramente "excluídos". Não acho
que valha a pena criticar a passividade dos pobres e sua incapacidade
de protestar e reclamar. Me choca sim a passividade da classe
média, que sabe que nunca vai ser rica e só quer se preocupar em
não se tornar pobre e entrar pro clube dos 60 milhões de esfomeados.
Ou a classe média alguma vez ameaçou reclamar dos constantes
desvios de dinheiro público que acontecem todos os dias nas
prefeituras e orgãos públicos? Obviamente não, pois é a própria
classe média que está ali dentro desviando 2 mil aqui, 5 mil ali, etc.
Quem corrompe e é corrompido, em qualquer esfera da sociedade
se torna cúmplice do caos. Desde o suborno ao guarda de trânsito
até o favorecimento em pequenas licitações, passando pelo
nepotismo, todos somos culpados por esse caos. Não estamos
fazendo muito diferente dos ricaços de 5 dígitos. Eles roubam
sonegando. Nós roubamos desviando e nos corrompendo
mutuamente. Então por que reclamamos? Alguma vez nos
juntamos na frente das prefeituras para fazer "Panelaços"?
Indo mais além, algum de nós já pegou seu vizinho político
ladrão e lhe deu uma surra por estar revoltado? E o que dizer
daquelas patricinhas da sua faculdade, que são filhas de
fiscais do Inss ou da receita federal e aparecem com carros
de 80 mil, que ganharam no aniversário? Alguém já parou
pra se preocupar com isso? Alguém já parou pra pensar que
uma pessoa que recebe 5.000 de salário não pode dar um
carro de 80 mil pra filha? Acho que não. Todo mundo faz
vista grossa né... Quem nunca molhou a mão de um policial
pra não receber uma multa salgada ao invés de denuncia-lo
por tentativa de extorsão? Até eu tive que molhar uma vez...
Quem sou eu então? nem um pouco diferente de vocês. Eu não
gostaria de ser assim. Queria ser mais ético, mais sensato,
mais objetivo, queria querer ser consciente o tempo todo e
não me preocupar apenas com as coisas que eu sei que vão
me beneficiar, mas também aos mais pobres, ainda que estes
estejam completamente alheios aos que roubam eles e os fazem
escravos do chamado "capitalismo selvagem". Acho que os
ricos não tem culpa de serem tão ricos. Eu não posso comprar
uma camisa de 10.000 reais, mas sempre compro camisas de
100 reais, e bem, tem famílias inteiras que vivem com 90 reais
o mês todo. É tudo uma questão de proporção. 10.000 pra mim é
muito, mas 100 reais pra pobres miseráveis também é muito.
Um salário mínimo de 300 reais num país com as riquezas que
este tem, é uma porrada dolorosa na cara de muita gente. É a
certeza de que estamos muito, muito atrasados. Ser o segundo
país com a pior distribuição de renda do planeta não é algo
que nos faça sentri orgulho...

Terceira consideração: Vamos lutar contra os verdadeiros vilões
que criam esse grande puteiro de proporções continentais? Vamos
parar de buscar nos outros a culpa por nossa passividade, nossa
enorme e vergonhosa omissão perante as pessoas que detém o
poder, que nós damos ao comparecer as urnas. A Daslú é culpada?
É! Mas também é a Globo! E o ACM também! E as concessões
públicas dadas também são a vergonha que sempre vai me fazer
sentir terrivelmente pequeno, num país tão grande. E nossa hipocrisia
é maior ainda, e é mais vilã que qualquer ricaço, que qualquer
sonegador, qualquer jornalista ladrão, publicitário sujo, contador
podre. É a nossa hipocrisia que fabrica tantas mortes, tanta revolta.
É a vontade de se tornar um mísero funcionário público e sonhar com
dias de corrupção melhores que nos faz tão falsos e omissos. No
dia em que formos as ruas, colher assinaturas de 70% dos 180 milhões
de Brasileiros para cancelar imediatamente as concessões de todas
as emissoras de tv e rádio, que nos propusermos a pegar em armas
caso seja necessário, que aceitarmos o fato de que em toda revolução
alguns padecem, outros seguem firmes, e no final, poucos dos que
lutaram conseguem ver o resultado já que este pode demorar muitos
anos, talvez aí, estejamos realmente a caminho de algum lugar.
Não será um metalúrgico barbudo que vai mudar o curso da nossa
terrível história medíocre, mesmo tendo boas intenções. Por mais
clichê que possa parecer, precisamos ter a vontade de defender a
vida das pessoas que não tem ninguém olhando por elas. Ao
mesmo tempo, estaremos defendendo o que é nosso. O Brasil
não pode pertencer a tão pouca gente. Se o nosso problema
fosse a Daslú, se para acabar com a nossa desigualdade
social bastasse apenas acabar com a Daslú, poderiamos
explodi-la facilmente. Mas não é. Nosso problema é da cultura.
E a cultura acaba penetrando na alma de todos, tornando-os
cada vez mais vazios e sujos. É muito, muito provável que
aqueles ricos não sejam o problema no Brasil. Nós somos
o problema.

Domingo, Julho 10, 2005
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Você já está se preparando para o fim?

Nós temos vivido em constante angústia. Não sabemos ao certo que rumo
tomar. Temos medo de dormir, porque os sonhos já não são seguros. Eles
apenas se repentem sem parar. Existem centenas de religiões diferentes e
eu só quero saber: Será que existe alguma que não prega o fim? Porque
eu preciso de motivação para viver e seguir firme! Por que será que todas
as religiões pregam o fim? Quantas vezes já fomos ameaçados pelo poder
divino, que viria para nos castigar? Eu já perdi a conta. Diziam que o mundo
iria acabar no ano 2000, e não acabou. Diziam que ia acabar em 1900, e
também não acabou. Todos têm algo a dizer. Alguns dizem que a bíblia foi
a melhor obra de ficção já escrita. Eu rio, mas ao mesmo tempo, penso que
podem estar certos. Nelson Rodrigues dizia que toda unanimidade é burra,
e eu acho que este é um bom motivo pra continuar vivendo. Nós estamos
tão doentes pelas coisas que fazemos, pelo mal que propagamos por aí,
nos fazendo de vítimas e esperando que Jesus volte pra nos dar um abraço
carinhoso, que esquecemos de viver, no sentido mais simples da palavra.

Se isto for verdade, lhes digo: preparem-se.

"Hercólobus é descrito como um astro seis vezes maior que o planeta
Júpiter, o maior planeta do sistema solar. Ele se move numa órbita
achatada, que a cada 3.600.000 anos passa pela Terra, arrastando
com ele tudo que encontra. Por seu tamanho soberbo, Hercólobus
gera um estupendo campo gravitacional. Assim, mesmo sem colidir
com nosso planeta e mesmo estando a 500 mil quilômetros de
distância, sua presença causará transtornos fenomenais.
Tal aproximação o fará refletir a luz do sol, fazendo-o ser visto como
um segundo sol durante sete dias em diversas partes do mundo,
em pleno meio-dia.Segundo interpretações das profecias e cálculos
astronômicos, a mera entrada de Hercólobus no sistema solar
causará um tsunami (uma onda gigantesca no mar, que alcançará
cerca de cinco quilômetros de altura), além de movimentos tectônicos
e terremotos, devidos à vibração e à energia que se produzirá pela
atração de Hercólobus sobre a Lua. A rotação dos eixos da Terra
será acelerada violentamente e os pólos serão Equador e parte do
Equador se tornará pólos"


Hercólobus, supostamente fotografado:



Todas essas lutas, todas as revoltas, não terão servido de nada. Mas
provavelmente ainda vale a pena lutar. Contra tudo de ruim que estiver
por aí. Acredita-se que um terço da população terrestre será salva e
apesar de viver num mundo pós-apocalíptico, será guiada por Deus
e ajudada por naves vindas de outros planetas.

Eu não sei bem o que pensar. De qualquer forma, vou achar terrivelmente
engraçada essa situação toda, se eu acordar e descorbrir que estou no dia
primeiro de janeiro de 2017, já que eles dizem que até 2016 tudo isso
que nós conhecemos como "lar" vai acabar. E no final das contas, os únicos
beneficiados com a onda de cinco quilômetros de altura serão os surfistas
que gostam de ondas alucinantes do Havaí. Eles terão uma morte redentora.

Mas, e se nada acontecer? E se sobrevivermos a tudo isso? E se
descobrirmos que foi tudo mentira, mais uma mentira inventada por
aqueles que não tinham idéias melhores para nos impactar com algo
que nos fizesse repensar nossa existência?

Poderemos ser atropelados amanhã de manhã na porta de casa. O
lustre da sala pode cair na sua cabeça, sua gravata pode te enforcar,
voce pode morrer fazendo sexo, pode desmaiar quando estiver esperando
o metrô e cair nos trilhos, pode tomar um tiro no trânsito de algum garoto
de 8 anos de idade, que você fingiu nunca ter visto durante os 8 anos em
que você parou naquele sinal, seu carro popular pode explodir do nada,
seu chuveiro elétrico pode te dar um choque no momento em que você
estiver tomando banho, você pode morrer quando estiver escrevendo
um texto pro seu blog, pode vomitar dormindo e morrer engasgado, pode
dormir e não acordar mais.

A única coisa que fica clara é que o medo nos impede de agir. Estamos
com medo, buscando uma forma de estabilização que dure 11 anos, para
que possamos ver se tudo não passou de uma piada. E nesses onze
anos, o que seremos? O que faremos de nossas vidas?

Segunda-feira, Julho 04, 2005
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Considerações sobre os minutos seguintes a
terrível experiência de constatar que jornalistas
inscrupulosos dominam o Brasil e que o demônio
Roberto Marinho morreu tarde, muito tarde...




Roberto Marinho, pai da TV brasileira, não por ter colocado-a
no mundo, mas por tê-la roubado na maternidade, foi o tipo doce
e gente fina. Há alguns dias li o relato de uma menina que derrubou
uma lata de lixo no pé dele num evento no Jóquei Clube do
Rio de Janeiro e o bom velhinho a ajudou a catar o lixo e colocá-lo
de volta na cesta. A menina nem sabia que era o Roberto Marinho.

Este anticristo governou o Brasil durante 4 décadas, praticamente
definiu o rumo da nossa história ao lado de alguns riquinhos
que tinham como hobbie a política e o favorecimento uns dos outros,
seguido pelo gosto por ver 50 milhões definhando nas favelas e
no interior.

Acabei de assistir ao documentário "Muito além do cidadão Kane",
produzido pelo Channel Four da Inglaterra, que foi lógicamente
barrado no Brasil já que imagino eu, nenhuma distribuidora e sã
consciência quis distribui-lo. É um documentário simples, com
cara de TV mesmo, sem nenhum recurso gigantesco nem nada,
se utilizando de nomes de peso como Chico Buarque, LULA (o
LULA que ainda tinha cara de metalúrgico mal encarado e não
tinha virado escravo da Globo) e mais uma porção de gente
que trabalhou na globo ou assistiu de mãos atadas as suas
manobras para dominar o Brasil, ou podemos dizer, destruí-lo.

Como eu já disse em outra oportunidade, fico consternado ao
ver a capacidade que o ser humano tem de se tornar cruel e
podre com o passar do tempo. Não sei se isso é fruto da nossa
natureza, mas no caso desses caras é inacreditável, pois o
cara sempre teve dinheiro e era formado em jornalismo! Sim,
jornalismo! Aquela profissão que na teoria deveria ter uma
puta ética e se comprometer em falar a verdade pras pessoas,
sem lavagem cerebral, etc.

O que mais me chamou atenção no documentário não foi
a revelação das grandes manobras políticas do Dr. Roberto (ele
era médico por acaso..?), mas sim as imagens que mostram
os apresentadores Cid Moreira, Sérgio Chapelen e Alexandre
Garcia apresentando algumas notícias durante os anos 70 e 80,
quando trataram de encobrir jornalísticamente alguns
acontecimentos. Fico embasbacado com a capacidade que
algumas pessoas tem de vender a alma pro capeta (leia-se
Roberto Marinho) e ainda assim, continuar exercendo sua
profissão com a maior consciência limpa, a maior calma do
mundo, sem nem considerar que podem ter selado o destino
de milhões de seres humanos, mesmo que indiretamente.
Triste ver que as decisões de uma pessoa podem influenciar
o destino de tantas milhões. E mais triste ainda, compreender
que no Brasil dos últimos 10 anos se criou uma adoração
popular por Silvio Santos, como se fosse este, uma alternativa
a Globo. Simplesmente é mais um que está aí, vivo, e que
ganhou concessão do governo militar pra não dizer a verdade
sobre o massacre que estava ocorrendo contra o povo. Não
me surpreende que o Silvio Santos do pós-morte de Roberto
Marinho tenha se isolado e perdido a vontade de batalhar
pela atenção. A questão não é e nunca foi o povo. A questão
era conseguir vencer o imbatível se fazendo passar por
guerreiro dos oprimidos, rei da baixaria popular.

Amigos, eu sou tão alienado quanto vocês, mas me dei
uma chance de assistir este documentário. Acho que ele
pode lhes esclarecer muitas coisas, e pode confirmar outras.
Tentem se dar uma chance de assisti-lo. Pode ser útil.
Quem sabe não nos tornemos guerrilheiros modernos
viciados em MSN, orkut e Fifa 2005?

Sábado, Julho 02, 2005
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Já parou pra pensar que seus últimos amigos
do orkut podem estar mortos?


Sim, é isso mesmo. Toda vez que você entra no orkut, a sua página
principal exibe 8 amigos. E essa exibição não é aleatória, mas
pela ordem de acesso ao orkut. Quanto mais recente foi o uso
do orkut, ela vai aparecendo nas primeiras posições da sua
lista.

Mas eu me pergunto: e aquelas que ficam lá no final, que não
são atualizadas jamais? Levando-se em consideração que
o orkut virou um hábito quase fisiológico, essas pessoas ou
são extraterrestres ou estão mortas. Isso mesmo! Mortas!

Para provar esta minha teoria, criei uma fórmula matemática
física quântica que nos permite ter a dimensão do caos que
o orkut poderá se tornar dentro de 10 anos.



País onde você vive
|
|
Tempo <==== ORKUT ====> Número de amigos orkutianos
|
|
Políticas Sociais do Governo Vigente

Esta relação mostra que o tempo que você é usuário do
orkut e o número de amigos que você tem na sua lista,
são fatores decisivos pra que possivelmente ao menos
um deles já esteja morto e você não tenha se dado conta.
O país onde você vive e a política social vigente também
são variáveis que devem ser levadas em consideração.

Agora a questão mais grave de todas. Prestem bem
a atenção! O que vou dizer é histórico e definitivo!

Eis a questão:

Imaginem um mundo devastado por guerras, doenças e
todo o tipo de tragédias, com pessoas famintas, destruídas,
milhões de corpos expostos nas ruas arrasadas do planeta,
em decomposição, desmembrados e apodrecidos.
Pois bem, é exatamente isto o que vai acontecer com o Orkut.
Dentro de 10 anos, o quadro orkutiano será tão grave, que
você poderá estar navegando em busca de um perfil feminino
pra dar uma cantada e arrumar uma transadinha pro fim de
semana, que possivelmente irá cantar alguma garota que já
tenha morrido! Sim, isto mesmo! A quantidade de usuários
do orkut que estarão mortos em 10 anos será tão assustadora,
que irá desenergizar a alma de todos que estiverem vivos.
E será o início do fim. SIm, eu falo exatamente isso:

O Orkut é um mundo pré-apocalíptico, onde você vai se
deparar com fantasmas o tempo todo, e irá se arrepender
de ter entrado neste site pro resto dos seus dias. Milhões
de perfis mortos, pessoas mortas, e o pior, sem nenhuma
possibilidade de serem apagados, já que só o morto tinha
a senha do perfil. E mais ainda, sem a possibilidade de
serem enterrados, como fazemos aqui no nosso mundo
concreto.

Deus tenha piedade de nós.

Sexta-feira, Julho 01, 2005
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Vou convidar Suzanne Von Richtoffen pra sair. Ela foi solta...



Hoje eu comemoro o dia da soltura (é assim que se escreve mesmo..??)
de Suzanne, a menina rebelde que o país conheceu depois de pedir ao
namoradinho pra dar umas marteladas na cabeça dos próprios pais...
Eu ficava olhando pras imagens dela e pensava: - Ó céus, o que levou
uma menina tão saudável como essa, com cabelos tão bonitos e bem
cuidados, bochechas modeladas a ferro e lábios tão puros a cometer
tal atrocidade?
Mas é verdade, elas cometem sim... as pessoas são meio sozinhas
e não sabem lidar com essas coisas... Suzanne sempre me pareceu
mais vítima do que vilã, como uma criança que ainda não sabe que se
pisar no pintinho amarelinho miudinho, ele explode (ploft!). E talvez
por isso mesmo ela tenha matado os pais. Uma incapacidade de
percepção da realidade, algo assim. Deve haver alguma explicação
séria e bacana pra esse tipo de coisa, pois nada justificaria matar
os próprios pais. A cada ano que passa, eu percebo que não estou
me tornando os meus pais. Eu vejo que já sou eles! E vejo o quanto
da insanidade deles há em mim, mesmo que eu a rejeitasse. A
diferença me parece ser a capacidade de criar algum senso de
responsabilidade por ter colocado alguém no mundo. Só isso.
Meus pais tinham a minha idade quando me tiveram. Já pararam
pra pensar que no caso de vocês também deve ter sido assim?

Suzanne é o centro dos meus pensamentos hoje. A doença
que me acometeu nos últimos meses me incapacitou de viver
algumas coisas de modo pleno e me deu a certeza de que eu
nasci para legitimar outras. A vagabundagem convicta é uma
delas. Mas não uma vagabundagem no sentido de não fazer
nada, pois aí eu seria um imprestável. É uma vagabundagem
ideológica mesmo (leiam o post anterior!).

Suzanne passou um bom tempo na cadeia, deu aulas de
inglês lá dentro, fez terapia, provavelmente entendeu que não
é muito legal dar marteladas na cabeça de nenhum ser vivo,
deve ter aprendido o valor da solidão e dos sonhos, caminhando
lado a lado. Tento imagina-la pensando num fim de tarde de
domingo sozinha em sua cela, no fato de que era uma menina rica
e depois de uma noite de pesadelos que ela sempre vai querer
esquecer, perdeu os pais e viu seu irmão ser enviado para tratamento
mental em uma instituição feminina do interior de São Paulo. Suzanne
deve ter pensado naquela tarde de domingo em coisas como
"lar" e "família". Ela deve ter se lembrado de quando era uma menina
pequena e seu pai lhe cantava alguma canção para que ela dormisse,
ou dos piqueninques dominicais, almoços em família, dos abraços,
do dinheiro que nunca havia lhe faltado, etc. Creio que Suzanne esteja
pronta para sair. É hora de recomeçar. Existem pessoas que matam uma
borboleta e não se arrependem nunca. E tem aquelas que apertam o
gatilho de uma arma e se arrependem no minuto seguinte. E eu me
pergunto: e se houvesse uma chance, uma única e perfeita chance de
não ter apertado o gatilho? Será que tudo teria sido diferente? Será que
se Suzanne não tivesse matado seus pais naquela noite de ódio, teria
lido algum poema ou algum conto de Lygia fagundes Telles e teria tido
um poderoso Insight sobre a vida e morte, sobre passado e futuro?
Será que teria sido despertado o lado mais sujo, podre e cruel dessa
menina, deste ser humano delicado e feroz?

Todos temos um lado tão podre que deveríamos nos envergonhar. Mas
temos um lado tão bacana e nem mesmo somos capazes de usar isso.
De quebra, quando o usamos, ninguém nos elogia.

Vou ver se chamo Suzanne Von Richtoffen pra sair por aí, dar umas
voltas. Vou mostrar pra ela as coisas que mudaram enquanto ela esteve
fora...

E nós, sempre seremos lembrados por nossos erros...

Sábado, Junho 25, 2005
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Nosso exército tão estranho...



Somos estranhos. Sim, somos estranhos. E nos orgulhamos disso.
Esta é uma noite de sexta-feira, e eu estou em casa, assistindo ao
desenho animado do Super Homem da cara queimada. É uma
obra prima. Do criador desse monstrinho aí da foto, o Salad
Fingers, provavelmente o melhor desenho animado desde
Caverna do Dragão. Estou orgulhoso por constatar que a minha
vida é tão escrota quanto a do Charlie Kaufman, que mesmo
nadando no dinheiro e fama não se entregou aos delírios
da rede social que abastece nossas cidades de micareteiros,
playboys frequentadores de baile funk e mulheres sem
personalidade que topam qualquer coisa contanto que seja
dentro de um Audi. A vida tem me mostrado que eu não
sou absolutamente nada, e na insignificância da minha
existência, percebo que posso quase tudo o que quero,
porque eu não espero mais nada de ninguém e nem de mim
mesmo. QUando não se têm muito a perder, você começa
a ganhar sempre.

Eu posso dizer que sou um homem quase completo. Eu tenho um
bom computador ligado a internet 24 horas por dia, um amplificador,
uma guitarra, uma Tv de 29 polegadas e uma máquina fotográfica
simpática, com a qual eu vou registrando em pretoe branco a minha
vida, seja lá o que esteja significando. Sou quase-completo porque
me dei conta de uma coisa que me falta, uma coisa que todo mundo
acaba percebendo um dia que lhe faz falta. É um momento de mudanças,
um momento em que as pessoas amadurecem e descobrem que lhes
falta algo muito sério, algo que passa a acrescentar muito as suas vidas,
algo que vai ser tomado pela alma e jamais sairá de lá, uma coisa única
e definitiva. Eu preciso, realmente preciso de TV a cabo.

Com esta constatação, eu me despeço ao som de Doves-Valley.

Sexta-feira, Junho 24, 2005
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Olhem isso...

Tem coisas que você vive a vida inteira e acha que nunca vai ver.
Isso foi foda. Meus parabéns aos aproveitadores baratos que
tiveram essa idéia genial. Tenho certeza que muitos brasileiros
mal informados alienados desligados vão adicionar ao seu
carrinho de compras esse produto, junto de DVDs como
"Tomates verdes fritos", "Armaggedon" e "Sociedade dos
poetas mortos".

http://www.submarino.com.br/dvds_productdetails.asp?Query=
ProductPage&ProdTypeId=6&ProdId=731585&franq=124979

É uma espécie de compensação que o babaca que estiver em casa
vai fazer pra se sentir menos babaca por não saber das coisas
que acontecem por aí enquanto ele está sendo um babaca em casa.

Enfim, bom divertimento pra todos.

Pepe

Post vomitado ao som de Interpol - hands away.

Quarta-feira, Junho 22, 2005
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E o inverno chegou...

Foi com grande felicidade que pude constatar que o inverno havia chegado
na tarde de ontem, sob um céu cinza e um clima gelado. Foi também com
amigdalite e com a carne interna da boca viva após horas e horas comendo-a
por alguma ansiedade dessas da vida, que eu parei para refletir sobre o
significado do inverno na minha vida.

Inverno de 1998

abandono meus estudos burocráticos matinais em busca de
isolamento, silêncio e uma forma de frear a raiva e a angústia de um tempo
doente. Noites a fio assistindo clássicos do cinema para finalmente descobrir
que a resposta para o futuro estava na negação total das influências externas,
aquelas que jamais irão fazer de você o que você gostaria de ser. Aquelas
que transformam alguém em um ninguém.

Inverno de 2002

eu morri pela primeira vez. Mas renasci após
descobrir que Sheakspeare já havia morrido e deixado uma carta de
suicídio para mim. Aquela, que ficaria famosa depois, com o título de
"um dia você aprende".

Inverno de 2003

as vezes, a vida soa engraçada... Certas pessoas
dizem que só se aprende com os erros. Eu acho que já aprendi com
os acertos também. Dizem que depois da tempestade, vem a calmaria.
Eu não acredito nisso. A tempestade é constante. Quer fugir dela?
Vá morar em uma chácara no interior do Mato Grosso. No meio
da tempestade que antecedia minha vida e que viria a sucedê-la,
algo muito próximo de uma experiência espiritual acontecia. Certas
pessoas morrem sem acreditar terem tido uma oportunidade de
ver o paraíso. Eu não posso reclamar disso. Eu vi. Eu estive lá.
O lugar aonde nãoi havia conflito algum. Era a sua alma contra
ela mesma. No meio do nada, sem nada por acontecer, é ali
que você encontra o que estava buscando e descobre
quem de fato você é.



Inverno de 2004

o mais frio de todos. o mais vazio também. Quando você percebe a
importância que existe em se controlar, em saber lidar com as
pequenas angústias, com as coisas irreversíveis, doenças incuráveis,
e então você acaba assim:



O inverno é a melhor estação que existe, a mais linda, a mais
representativa do espírito humano. Como dizem os nossos
recém homenageados do "Interpol", é "um tempo para ser
pequeno".

A mtereologia diz que esse inverno vai ser em média 2
graus acima do último, mas eu não ligo. O inverno não
é medido metereologicamente. Ele é espiritual. Está
dentro de cada um de nós. Eu gosto da primavera e do
outono também, eu gosto das cores. Mas o inverno é
triste, vazio, ele é o que precisamos para continuar
caminhando. E quando você estiver cansado, basta
fugir um pouco. Sempre vai haver um edredon pra
te proteger, e logo depois você vai ver que precisa
sair de novo. É a nossa natureza. Somos caóticos.

Preciso de um casaco Adidas Retrô. Alguém pode
me dizer aonde comprar um?

Este post foi patrocinado pela ABTED (Associação Brasileira
dos teóricos existencialistas desocupados).


Este post foi escrito ao som de Aimee Mann - One e
K T Tunstall - The other side of the world.


Melhor banda de Rock do mundo



Eu presto esta pequena homenagem a banda que consegue me
levar a lugares onde nunca estive antes. Músicas perfeitas, letras
inacreditavelmente complexas e simples ao mesmo tempo, acordes
que você escuta e depois pensa: Meu Deus, como eles conseguem
criar essas melodias usando esses acordes e eu tento, tento e
acabo decidindo assistir algum DVD por falta de talento melancólico...
Eu preciso dizer o que Interpol significa pra mim. Preciso muito.
Eles são o Mcgyver do Rock. Lembra quando o Mcgyver conseguia
desarmar uma bomba atômica com um palito de fósforo, um chiclete
e um pouco de saliva? Então, é isso que Paul Banks e Daniel Kesser
fazem. Eles fabricam as doenças e os antídotos. É um processo
contínuo que se renova, um ciclo sem fim.

Preciso começar a fazer uso de álcool, cocaína, bilhar e prostituição
urgentemente. Não posso falar complexidades. O que me importa são
as coisas elementares. Preciso fazer rock.


Terça-feira, Junho 21, 2005
Comente
Estou cansado de ser Brasileiro...

Eu nunca me emocionei com o hino nacional sendo executado em competições
esportivas. Muito menos com a bandeira sendo paparicada no 7 de Setembro.
Não posso me considerar um brasileiro apaixonado e todo aquele blá blá blá
básico de Galvão Bueno em jogo de copa do mundo. Eu sou um merda, básico,
igual a todo mundo por aí, que só queria poder trabalhar feliz, ganhar em dia,
fazer compras as 2 da manhã no supermercado, ter tempo pra malhar e ser
saudável, etc. No fundo no fundo, pessoas como eu não querem tanto. Existir
sem estressar nos faria feliz. Até porque o mundo vai acabar até 2015 né...

Por isso eu fico sem entender essas coisas de política que acontecem por
aí. Não existe nenhuma questão ideológica que move esses caras, é tudo
financeiro mesmo. Agora o presidente finalmente está se fodendo por causa
das pessoas que realmente mandam no governo. Temos a falsa ilusão de
estar elegendo um síndico a cada 4 anos, aquele cara que vai colocar
ordem na casa, unir os opostos, encontrar soluções geniais, comandar
os milhões de famintos em busca de comida, etc. A gente até acredita
quado eles lançam programas que dão dinheiro pra famílias que mantém
seus filhos na escola, que distribuem cartões fome zero pros miseráveis
e diz a eles que tipo de comida eles podem comer, sob ameaça de
perderem tal direito. Terrível manipulação essa.

E agora esse bando de senadores, deputados safados, políticos mentirosos,
seres humanos sujos, ladrões engravatados vem a tona com essa estória de
mensalão... Como se já não bastasse auxílio-terno, auxílio-moradia,
auxílio-gasolina, auxílio-tudo, e mais aquele salário estratosférico, esses caras
ficam puxando o tapete uns dos outros. E isso é que não dá pra entender.
Como é possível que um bando de ladrões que só se diferenciam pelas
legendas de seus partidos possam trocar acusações afiadas o tempo
inteiro como se nenhum deles fossem realmente bandidos? É como se
o fernandinho Beira-mar acusasse o Elias "Ninja" Maluco de ser muito
violento. Em quem você acreditaria? Que posição tomaria?

A minha posição é a do ódio. Eu odeio o José Dirceu, eu odeio o
Roberto Jefferson, odeio o Delúbio Soares, odeio todos aqueles caras
de terno que cobram do país depois de tudo o que o país fez por eles.
Não consigo entender como é possível que caras de 40, 50, 60 anos
mantenham o gosto por roubar, "estuprar" o dinheiro público. Que objetivo
um homem de 60 anos pode ter em desviar 200 milhões de dólares da
construção do TRT de São Paulo? Ele por acaso estava pensando em
viver até os 250 anos? Que coisa mais triste, mais ilusória...
Por que certas pessoas simplesmente não aprendem a "ligar o foda-se"
e viver a vida? Pra que pisar nos outros? Como é que um cara desses
consegue fazer churrascos aos Domingos com os netinhos se tem tanta
gente que come a própria merda por aí?

Eu quero acreditar no inferno. O céu já não me causa mais ansiedade.
Pra onde eu vou? Eu não sei. Mas eu sei pra onde eles vão.

Proponho um brinde a "Infernalização" da alma de cada político brasileiro.
O pacto com o diabo está selado há tempos. Roberto Jéfferson, Garotinho,
José Serra, Delúbio, Nicolau Neto, Alckmin, César Maia e ACM, o diabo é
Sado-masoquista necrófilo psicopata e ele os aguarda com ansiedade.

Morram. Morram. Morram.